A Cultura precisa de chão

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Os grupos de tradições culturais da região do Cariri têm sido forçados a olharem apenas para cachês, embora tenham, muitas vezes, feito apresentações voluntárias. Um dos grupos que mais expõem a cultura Caririense, são os Irmãos Anicetos; que através da musicalidade, herança dos ancestrais, retratam o ambiente rural, exemplos, “o casamento da Acauã com o Gavião, Ana, o Maribondo dentre outras, que encantam o público que os vêem. Encantado também ficou eu que a primeira vez que os vi fiquei de cabelos arrepiados, Algum tempo depois entendi porquê e mais algum tempo algumas questões passaram a me incomodar e aqui compartilho:
Onde estão hoje os irmãos Anicetos? Segundo disse um dos mestres, que mora em um dos bairros mais populosos da cidade do Crato, “as últimas vezes que plantamos nossas roças, plantamos de meia, em terra que não é nossa, por que não temos terra para plantar”. Seria então os Anicetos, grande expoente da nossa cultura, também um grupo de sem terra? Nunca vi um desses pseudo defensores da cultura popular fazerem tal reflexão, talvez na França ou em um desses países Europeus, onde o grupo apresentou, alguém tenha expressado esse absurdo em uma língua que os membros não entendem. O próprio mestre relatou, ainda, que a maioria das músicas foram criadas pelos seus ancestrais, na roça, observando a natureza; e as peças que ele mesmo criou seguiu o mesmo processo.Estaria então, ameaçado a criatividade dos Anicetos? Ou a musicalidade deve expressar a época que se tinha terra para produzir e o ambiente para estimular o processo de criação? Ou seja duzentos anos atrás. E essas pessoas e entidades promotoras de eventos, estão preocupadas em garantirem os processos criativos dos grupos ou apenas perpetuar uma cultura de sem terra? Não percebem que a maioria das terreiradas são em quintais apertados, locais improvisados, porque não há terra onde se possa fazer um local digno de uma terreirada?
Temos assistido ultimamente, a espetacularização da cultura popular que chega a ser quase o mesmo que o uniformismo vazio da cultura de massa. Valorizar a cultura não é apenas levar um grupo à praça, ou assistir um grupo na praça, ou tirar foto com um mestre e postar no facebook, ou num site, nem tão pouco é, assegurar um simples cachê de quinhentos reais.
Quero ver os grupos da tradição, pois os demais não são diferentes dos Irmãos, com cacetes e ganzás, com facões, zabumbas, caixas, pratos e maracás,Mateus e Jaraguás,se reunirem para virem à praça reivindicarem seu pedaço de chão.
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